Colonialismo linguístico, epistemicídio e relações étnico-raciais: a marginalização das línguas indígenas e africanas

Autores

DOI:

https://doi.org/10.47149/pemo.v8.e16083

Palavras-chave:

Línguas Esquecidas, Vozes Silenciadas, Saberes Outros, Exclusão.

Resumo

Este trabalho discute como práticas herdadas do colonialismo linguístico e do epistemicídio permanecem nas exigências dos programas de pós-graduação no Brasil. Tem como objetivo compreender como essa ausência de reconhecimento das línguas e saberes marginalizados ainda sustenta estruturas coloniais que silenciam vozes e formas dissidentes da lógica dominante. O estudo tem caráter qualitativo e se apoia em referenciais decoloniais. Foram analisados documentos institucionais ligados à proficiência linguística e também colhidos relatos de ex-estudantes da Universidade Federal do Paraná e da Universidade de São Paulo. A análise documental revela a centralidade de línguas de colonizadores como critérios de proficiência, enquanto línguas de povos marginalizados seguem ignoradas. Essa exclusão afeta estudantes indígenas, quilombolas, negros e migrantes africanos, cujas línguas e formas de conhecimento continuam à margem da legitimidade acadêmica. Os resultados indicam que as línguas coloniais seguem sendo tratadas como centrais para a legitimação acadêmica. Já as línguas indígenas e africanas, por outro lado, continuam fora do reconhecimento acadêmica, o que mostra como critérios aparentemente neutros reforçam estruturas coloniais, apagando saberes ancestrais. Conclui-se que reconhecer línguas indígenas e africanas nas avaliações de suficiência é um passo fundamental para a construção de uma universidade plural, justa e comprometida com a diversidade epistêmica.

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Biografia do Autor

Flávio Rosário, Universidade Federal do Paraná

Possui um Bacharelado em Humanidades pela Universidade da Integração Internacionalda Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), onde também obteve Licenciatura em Pedagogia. Durante esse período, foi agraciado com uma bolsa do Programa Residência Pedagógico (PRP) da UNILAB/Malês. Além disso, concluiu uma Especialização em Ciências Políticas naUNINTER. Atualmente, encontra-se no curso de mestrado em Educação, na linha de Cultura, Escola e Processos Formativos em Educação, no Programa de Pós-graduação em Educação (PPGE) da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Dedicado à pesquisa, é membro ativo do Grupo de Estudos Curriculares Decolonialidade, Diversidade e Subalternidade (GECUDEDIS) da UFPR. Seus interesses acadêmicos incluem investigaçõesno campo das Pesquisas Curriculares, com um enfoque especial na DecolonizaçãoCurricular e na exploração da Cultura. Atualmente membro de Representação Discente  do PPGE da UFPR.

Elenilton Vieira Godoy, Universidade Federal do Paraná

Bacharel e licenciado em Matemática pela PUC-SP e Centro Universitário SantAnna, respectivamente. Mestre em Educação Matemática pela PUC-SP, doutor e pós-doutor em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP). Atualmente, sou professor adjunto do Departamento de Matemática da Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde atuo nos Programas de Pós-Graduação em Educação em Ciências e Matemática (PPGECM) e em Educação (PPGE). Também coordeno os cursos de Matemática (licenciatura e bacharelado) e represento a UFPR na Rede de Pós-Graduação em Educação da América Latina (REDPEL). Minha trajetória acadêmica tem sido dedicada ao campo da educação, com foco em dois eixos principais: Educação Matemática e Socioeducação. Na Educação Matemática, minhas pesquisas abordam temas como estudos curriculares, cultura, interseccionalidade e decolonialidade, buscando promover uma educação que reconheça e valorize as diferenças culturais e sociais. Meu trabalho nessa área visa contribuir para a ressignificação do currículo escolar e para a análise crítica de documentos curriculares oficiais e materiais curriculares, com o objetivo de fomentar práticas pedagógicas mais inclusivas e equitativas. Na Socioeducação, dedico-me a investigar práticas de liberdade assistida e a reinserção escolar de jovens em medidas socioeducativas. Minha abordagem enfatiza a interseccionalidade, explorando como questões de gênero, raça e classe influenciam as trajetórias educacionais desses jovens. Busco compreender e transformar as dinâmicas que perpetuam desigualdades, promovendo uma educação que respeite e valorize as identidades e experiências dos estudantes. Lidero o Grupo de Estudos Curriculares, Decolonialidade, Diversidade e Subalternidade (GECUDEDIS), que reúne pesquisadores e estudantes para discutir e promover práticas educacionais transformadoras. Além disso, atuo como coordenador do Grupo de Trabalho Currículo e Educação Matemática (GT3) da Sociedade Brasileira de Educação Matemática (SBEM), onde contribuo para o avanço das discussões sobre currículo e formação de professores.

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Publicado

13-01-2026

Como Citar

ROSÁRIO, F.; GODOY, E. V. Colonialismo linguístico, epistemicídio e relações étnico-raciais: a marginalização das línguas indígenas e africanas. Práticas Educativas, Memórias e Oralidades - Rev. Pemo, [S. l.], v. 8, p. e16083, 2026. DOI: 10.47149/pemo.v8.e16083. Disponível em: https://revistas.uece.br/index.php/revpemo/article/view/16083. Acesso em: 25 jan. 2026.

Edição

Seção

Dossiê: Culturas e diversidades na dinâmica das relações étnoco-raciais