Um ensaio sobre práticas desejantes

relação docente estudante como lugar a ser ocupado

Autores

DOI:

https://doi.org/10.30938/bocehm.v8i23.5127

Palavras-chave:

Relação Professor-Aluno, Desejo, Prática Docente, Formação de Professores, Filosofia da Diferença

Resumo

Este artigo devir ensaio que irrompe de exercícios que estamos fazendo numa busca por fendas e brechas e ranhuras em nossa tese de doutorado, já defendida, na qual criamos possibilidades para compreender o que pode o rigor em cursos de licenciatura em matemática quando considerado na ordem do acontecimento – um rigor que se desdobra em várias possibilidades quando se retira o artigo definido masculino que o acompanha. Naquele momento, a partir de um olhar para entrevistas feitas com licenciandos e professores de matemática, ainda em nosso mestrado, e de largo estudo teórico, trabalhamos incansavelmente na composição de narrativas que ajudaram a construir um lugar de respiro – assim como praticantes de yoga, inspiramos e expiramos profundamente na tentativa de abrir espaço entre os órgãos aparentemente conexos. Encontramos uma possibilidade de tratar o rigor discursivamente e de olhar para falas de uma professora que ensina matemática, sem interpretações ou julgamentos, apenas observando seus afetos passando e atravessando, mostrando-nos novos possíveis para rigor em todas as suas entrelinhas. O resultado desse movimento de des(re)construção do rigor deixou uma infinidade de lacunas e, sendo assim, novas reflexões tornam-se urgentes. Deste modo, o objetivo deste artigo-ensaio é o de adentrar numa das fendas encontradas, continuar compondo e experimentando e, parafraseando Manoel de Barros, repetindo e repetindo até ficar diferente. Mas, que fenda seria essa? Aquela em que adentramos ao tentarmos estabelecer uma linha divisória entre práticas docentes e práticas de estudantes, quando levamos em consideração práticas, táticas e estratégias operadas no interior dos limites de cursos de licenciatura em matemática. Através de um convite para que visitemos pensadores da diferença, tais como Deleuze, Guattari, Rolnik, Foucault, Nietzsche e Lapoujade, tentamos construir uma relação docente-estudante pautada no desejo – um desejo como lugar a ser ocupado por afetos que pedem passagem. No entanto, para conseguir operar tal prática desejante, entendemos que, antes, é preciso compor uma fuga e deixar para trás tudo aquilo que identifica e que rotula – ou seja, abandonar o eu e vislumbrar uma composição de algo totalmente conectado aos outros que circundam e aos afetos que atravessam. Nesse caminho, através de um encadeamento de ideias e de alguns desdobramentos e de duas conjecturas e de uma multiplicidade de entrelinhas, este artigo-ensaio possibilita um pensar sobre a relação docente-estudante a partir de um prisma fora de qualquer categorização prévia, seja em relação às características identitárias ou, mesmo, de práticas devidamente assentadas em modos de agir que garantem a permanência de tais práticas. Uma relação que assume a alteridade e que não vê no outro um lugar distante e inalcançável e que nos falta, mas, sim, que enxerga no outro um ser que coabita e que participa integralmente daquilo que nos tornamos a partir de práticas que compartilhamos. Uma relação docente-estudante pautada na ordem do acontecimento, que compõe existências autênticas e que afirma formas de resistências. Novamente, repito: este artigo devir ensaio e é um convite para que pensemos sobre práticas de professor e práticas de estudante operadas na ordem do acontecimento.

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Biografia do Autor

Danilo Olímpio Gomes, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Alagoas

Doutor em Educação Matemática pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho - Campus Rio Claro/SP, mestre em Educação Matemática pela mesma instituição e licenciado em Matemática pelo Centro Universitário UniFafibe - Campus Bebedouro/SP. Trabalha com os seguintes temas de pesquisa: formação inicial e continuada de professores, ensino-aprendizagem de análise real e cálculo diferencial e integral considerando suas relações intrínsecas com o rigor, história da matemática, filosofia da diferença, arqueologia foucaultiana, filosofia da matemática e da educação matemática, epistemologia do conhecimento matemático. Atualmente, atua como docente do ensino básico, técnico e tecnológico no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Alagoas - IFAL

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Publicado

2021-06-17

Como Citar

GOMES, D. O. Um ensaio sobre práticas desejantes: relação docente estudante como lugar a ser ocupado. Boletim Cearense de Educação e História da Matemática, [S. l.], v. 8, n. 23, p. 1013–1027, 2021. DOI: 10.30938/bocehm.v8i23.5127. Disponível em: https://revistas.uece.br/index.php/BOCEHM/article/view/5127. Acesso em: 17 ago. 2022.

Edição

Seção

GT07 - Formação de Professores que ensinam Matemática