Chamada para submissão de trabalhos - DOSSIÊ TEMÁTICO v. 18, n. 3, 2026: Linguagens e cidadania linguística em tempos sombrios

2026-05-02

Vivemos em tempos sombrios, em que a maldade se manifesta na construção de inimigos internos da nação. Esse contexto reflete o funcionamento de uma globalização perversa que, como analisa Milton Santos (2000), impõe o consumo, a competitividade e a guerra como fundamentos de uma ordem social voltada à exclusão e ao controle. Trata-se de uma globalização globalitária, em que as técnicas, subordinadas ao mercado, sustentam um sistema que elimina solidariedades e naturaliza o sofrimento como instrumento de poder.

É nesse contexto que este dossiê propõe pensar linguagens como práticas insurgentes e cidadania linguística como horizonte político. Diferente da noção liberal de direitos linguísticos, criticada por Stroud (2001), que se inscreve numa lógica afirmativa e seletiva de direitos concedidos de cima para baixo, a cidadania linguística sugere um exercício transformador: coloca a linguagem como espaço de luta, em que sujeitos e comunidades reivindicam o direito de significar e de se organizar, elaborando novas formas de participação democrática e de convivialidade.

Concepções colonialistas de língua e ensino, sustentadas por uma lógica sistêmica que pressupõe a aquisição da língua como um todo perfeito — tendo como referência idealizada a/o falante nativa/o — moldam nossa formação, nossas emoções e nossas identidades. Essa perspectiva, muitas vezes, nos restringe a ponto de dificultar a negociação, a criação e a ressignificação da aprendizagem, bem como o reconhecimento e a valorização de nossas práticas locais (Martins, 2024). Nesse contexto, a emoção do medo reforça discursos dominantes que impõem normas de controle sobre os corpos. Como observa Ahmed (2004, p. 69), “o medo envolve encolher a mobilidade do corpo [...]. O medo trabalha para contê-lo, de modo a ocupar menos espaço”.

Ao lado dessa perspectiva, a crítica de Fanon (2020) à “zona do não-ser” nos ajuda a compreender como a imposição das línguas coloniais opera na desumanização de corpos  racializados, enquanto autores como Grosfoguel (2016) e Makoni & Pennycook (2007) desconstroem a ideia de língua como entidade fixa, revelando-a como invenção social e política a serviço de projetos coloniais. Aqui, é central para ampliar a reflexão partirmos daquilo que Lelia Gonzales (2020) nos demonstra; como o racismo e o sexismo estruturam a cultura brasileira, naturalizando a marginalização do povo negro e, em especial, da mulher negra, reduzida a estereótipos como a “mulata” e a “doméstica”. Assim, é evidente como a memória e a consciência se entrecruzam nesse processo: enquanto o discurso dominante tenta apagar a presença negra, a memória resiste, inscrevendo valores, práticas e línguas, como o pretuguês, que revela a marca viva da africanidade na cultura e na linguagem brasileiras. Essa leitura desloca a cidadania linguística para um campo onde a luta não é apenas por reconhecimento, mas por descolonização dos imaginários e superação daquilo que a autora chama de “neurose cultural brasileira” produzida pelo mito da democracia racial.

Assim, pensar linguagens em tempos sombrios é também reconhecer os epistemicídios linguísticos que estruturam a modernidade/colonialidade, mas igualmente valorizar as cosmologias quilombolas, indígenas e afrocentradas que propõem formas de bem-viver contra a lógica globalitária. A cidadania linguística, nesse sentido, não se reduz a direitos administrados pelo Estado, mas emerge das práticas de resistência inscritas no corpo, na voz, na memória e nas culturas afro-indígenas.

Este dossiê, conduzido pelo Grupo de Trabalho em Práticas Identitárias em Linguística Aplicada da Anpoll, é feito de incômodos e interrogações:
● De que modos as linguagens podem afirmar práticas de resistência, solidariedade e convivialidade diante do neoliberalismo e de suas tecnologias de controle e extermínio?
● Em que medida a cidadania linguística pode se constituir como um horizonte de enfrentamento às formas de apagamento e violência racial, de gênero e de classe que sustentam a estrutura social brasileira?
● De que maneira a noção de cidadania linguística pode ser pensada como prática insurgente e transformadora, para além da perspectiva liberal de direitos?
● Como o medo opera como emoção política que restringe corpos e subjetividades, e quais as implicações disso para práticas educativas e linguísticas?
● Quais os efeitos das concepções colonialistas de língua e ensino sobre a formação docente, as identidades e as emoções de aprendentes e professoras/es?
● Como o ensino de línguas pode favorecer modos de sentir, falar e existir que desafiem as políticas de medo e controle dos corpos?
● De que forma práticas linguísticas locais, como o pretuguês, bem como as cosmologias quilombolas, indígenas e afrocentradas, contribuem para processos de descolonização dos imaginários e construção de alternativas ao modelo globalitário?

Convidamos, assim, à submissão de trabalhos que articulem perspectivas críticas, decoloniais e interseccionais, apostando que pensar linguagens e cidadania linguística é, em si, uma prática de resistência frente à violência dos tempos sombrios que habitamos.

ORGANIZADORES: Suellen T. A. Martins (UFSB); Nicolas Oliveira (UESC); Gabriel Nascimento (UFSB)

As propostas devem ser submetidas diretamente no site.
Prazo de submissão: 05 de maio de 2026 a 05 de setembro de 2026

Previsão de Publicação: dezembro de 2026.

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