Educação das relações étnico-raciais na formação inicial em pedagogia: estudo diagnóstico no IFCE, campus Canindé
DOI:
https://doi.org/10.52521/enpe.v4i1.17485Palavras-chave:
Educação das Relações Étnico-Raciais., Formação de Professores., Currículo., Racismo.Resumo
A formação socio-histórica brasileira é alicerçada na marginalização material das populações negra e indígena, dinâmica frequentemente reproduzida pelo currículo escolar hegemônico. Apoiado na sociologia radical de Clóvis Moura e na pedagogia emancipatória de Paulo Freire, este artigo tem como objetivo analisar as percepções de estudantes ingressantes do curso de Licenciatura em Pedagogia do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) – campus Canindé acerca das questões étnico-raciais e indígenas, diagnosticando suas trajetórias escolares prévias e expectativas formativas. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa de natureza diagnóstico-exploratória. A coleta de dados ocorreu via questionário online aplicado a 30 discentes (taxa de resposta de 85,7%), cujas narrativas foram tratadas sob o rigor da Análise de Conteúdo de Bardin. Os resultados evidenciam que os ingressantes (majoritariamente mulheres negras oriundas de escolas públicas) compreendem o racismo não como um desvio moral, mas como mecanismo estrutural que gera exclusão e expropriação territorial. As narrativas atestam que a aplicação das Leis nº 10.639/03 e 11.645/08 em sua Educação Básica foi marcada pelo apagamento da historicidade subalternizada e pela folclorização eurocêntrica. Essa grave lacuna reflete-se em um sentimento de insegurança profissional, acompanhado, contudo, de uma recusa frontal dos estudantes à reprodução da alienante "educação bancária". Conclui-se destacando a urgência de o Ensino Superior intervir nos Projetos Pedagógicos de Cursos (PPCs) para transformar a indignação empírica discente em autêntica práxis docente emancipatória, sugerindo-se a realização de um estudo longitudinal como desdobramento futuro.
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