Política e cultura na Íbero-América

2020-09-03

As configurações da política contemporânea, com o fortalecimento de forças conservadoras e o crescimento de partidos e políticos populistas, têm colocado em ameaça a ampliação da cidadania mesmo em nações com democracia consolidada, como os Estados Unidos e a França. Esse contexto é, potencialmente, mais grave nos países ibéricos e latino-americanos que retomaram ou, em alguns casos, inauguraram seus regimes democráticos somente após a Segunda Guerra, tendo vivido por décadas em regimes de exceção.

 

A partir das reflexões do pensador argentino Ernesto Laclau, entende-se que o populismo é uma espécie de “significante vazio”, uma “forma da construção da política”, cujo significado é alvo de disputa não apenas no campo político, mas também no acadêmico e no midiático, podendo assumir feições tanto de direita, quanto de esquerda. Trata-se, portanto, de uma disputa que é, antes de tudo, simbólica.

 

O fascínio que as lideranças populistas conservadoras têm exercido sobre amplas parcelas da população aponta para transformações dos valores de nossas sociedades e, portanto, de sua cultura, e mais especificamente de sua cultura política, com o recrudescimento da xenofobia, do sexismo e do racismo, bem como do recurso a técnicas biopolíticas, de fazer viver para fins do capital, como assinalou Michel Foucault, ou mesmo da necropolítica, esse poder de máxima soberania e controle sobre a mortalidade, como aponta Achille Mbembe.

 

O presente dossiê se propõe a ser um espaço para reflexão sobre este “estado de coisas”, abordando a atuação nas disputas político-culturais, como nas chamadas ‘Guerras culturais” ou nas políticas identitárias implementadas pelos diversos movimentos minoritários, com feições emancipadoras, mas também por movimentos micro-fascistas que reivindicam identidades substancialistas, geralmente baseada em valores nacionalistas. O dossiê contempla, assim, fenômenos relacionados tanto a organizações e movimentos conservadores, quanto àquelas progressistas que se dão no espaço íbero-americano no atual milênio.

 

Desta proposta geral, se depreende o seguinte conjunto de eixos de abordagem, entre outros possíveis:

 

-       Estado e políticas públicas de cultura (cultural policy)

-       Políticas de cultura (cultural politics) dos movimentos sociais

-       Estado, sociedade e políticas identitárias

-       Conservadorismo e guerras culturais

-       Estado, arte e censura

-       Cultura, mercado e neoliberalismo

-       Cultura, pós-colonialismo, decolonialismo e neocolonialismo

-       Regimes populistas e cultura

-       Biopolítica, necropolítica e cultura

Prazo para recebimento de artigos e resenhas: 01/12/2020.

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Editores: 

Alexandre Barbalho (Programa de Pós-graduação em Sociologia e Doutorado em Políticas Públicas, UECE, Brasil) alexandre.barbalho@uece.br

Manuel Gama (Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, Universidade do Minho, Portugal) manuelgama@ics.uminho. pt