“Fala do crime” e “fala da violação”

Duas faces da violência estrutural no Brasil

Autores

DOI:

https://doi.org/10.52521/opp.v23n2.16716

Palavras-chave:

Tortura, Violência de Estado, Fala do crime, Fala da violação, Movimentos sociais

Resumo

Este artigo analisa as representações sociais de familiares de vítimas de violência estatal e de atores de organizações que atuam no acolhimento e apoio de tais vítimas. A partir desta análise, e inspiradas pelo conceito de “fala do crime” descrito por Caldeira (2000), propomos a noção de “fala da violação”. Argumentamos que a “fala da violação” opera como forma narrativa que organiza experiências difusas, contínuas e coletivas de violência estatal, em contraste com relatos episódicos, moralizantes e segregadores vinculados ao crime comum. O estudo baseia-se em 21 entrevistas realizadas no Rio de Janeiro e em São Paulo e examina, primeiro, como interlocutores definem tortura a partir de matrizes jurídicas, nativas e políticas; depois, como trajetórias marcadas por práticas violentas do Estado produzem sujeitos coletivos, especialmente movimentos de mães de vítimas. Os resultados indicam que, aquilo que nomeamos de “fala da violação” desbanaliza práticas estatais historicamente legitimadas, ao organizar uma narrativa sobre o sofrimento na esfera pública e tensiona instituições de segurança e justiça, revelando limites da democracia brasileira. Conclui-se que a categoria proposta contribui para compreender formas de elaboração da violência em contextos de desigualdade estrutural.

Biografia do Autor

Thais Lemos Duarte, Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG

Pesquisadora de pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Minas Gerais (PPGS - UFMG), pesquisadora do Centro de Estudos da Criminalidade e Segurança Pública (CRISP - UFMG). Desenvolve consultorias sobre sistema penal e prevenção à tortura. É bacharel em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGSA - UFRJ) e doutora em Ciências Sociais pelo Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais da UERJ. Coordenou e compôs diversas pesquisas sobre segurança pública e sistema de justiça criminal, assim como fez parte de organizações da sociedade civil e de órgãos de Direitos Humanos, como o Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura. Universidade Federal de Minas Gerais. https://orcid.org/0000-0002-9149-7387. In Memorian

Maria Gorete Marques, Universidade Federal de São Carlos - UFSCar

Professora do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFSCar. Doutora e Mestre em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Especialista em Direitos Humanos pela Faculdade de Direito da USP. Licenciada e Graduada em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH/USP). Pesquisadora Associada do Núcleo de Estudos da Violência da USP (NEV/USP). Vice-lider do Grupo de Estudos sobre Violência e Administração de Conflitos - GEVAC. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2667-8736. E-mail: mariajesus@ufscar.br

Giane Silvestre, Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo - NEV/USP

Doutora pelo Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Mestre em Sociologia pela mesma instituição e graduada em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP) campus Marília. Atualmente é Pesquisadora Associada no Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV/USP). Foi Professora Colaboradora do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP) entre 2021 e 2022 e realizou estágio de Pós-doutorado no NEV, vinculado ao Departamento de Sociologia da USP. Durante o doutorado realizou estágio no exterior no Center for the Study of Law & Society/University of California, Berkeley. É integrante o Grupo de Estudos sobre Violência e Administração de Conflitos da UFSCar (GEVAC), associada ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e Pesquisadora colaboradora do Instituto de Estudos Comparados em Administração Institucional de Conflitos (INCT/InEAC). Tem experiência na área de Ciências Sociais, com ênfase em Sociologia da violência e segurança, atuando principalmente nos seguintes temas: segurança pública, sistema de justiça criminal, sistema prisional, controle do crime, violência contra mulher e audiências de custódia.

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Publicado

2026-03-02

Como Citar

DUARTE, T. L.; MARQUES, M. G.; SILVESTRE, G. “Fala do crime” e “fala da violação”: Duas faces da violência estrutural no Brasil. O Público e o Privado, Fortaleza, v. 23, n. 2, p. e16716, 2026. DOI: 10.52521/opp.v23n2.16716. Disponível em: https://revistas.uece.br/index.php/opublicoeoprivado/article/view/16716. Acesso em: 7 mar. 2026.