“O silêncio é um amigo que nunca trai”?

Narrativas de atores públicos paulistas e mineiros sobre a ação do PCC

Autores/as

DOI:

https://doi.org/10.52521/opp.v23n2.17099

Palabras clave:

PCC, Controle Estatal, Agentes Públicos, São Paulo, Minas Gerais

Resumen

O artigo busca compreender de que maneira atores públicos de São Paulo e de Minas Gerais descrevem a expansão da organização Primeiro Comando da Capital (PCC) em seus estados de ação. A partir de dados obtidos via entrevistas, documentos e notícias de jornais, pretende-se explorar processos que, embora tenham ocorrido em localidades e temporalidades distintas, guardam semelhanças no modo como são tratados. Em São Paulo observou-se, ao longo das duas primeiras décadas dos anos 2000, uma distância entre as narrativas do governo e dos agentes estatais que trabalham no cotidiano do controle do crime. Há, no primeiro, um reiterado discurso de negação e minimização do poderio e da capilaridade do PCC, fato não observado no segundo grupo. No estado de Minas Gerais, em boa medida, os discursos dos agentes públicos se pautaram por uma espécie de silêncio, especialmente em relação aos que conformam os altos escalões das instituições, evitando-se falar sobre o poderio do PCC. Já quando as ações do grupo reconhecidamente começaram a afetar as rotinas dos espaços urbanos, os atores de ambos os estados passaram a divulgar suas percepções, indicando também as medidas adotadas para reprimir a organização.

Biografía del autor/a

Thais Lemos Duarte, Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG

Doutora em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Pesquisadora de pós-doutorado do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Pesquisadora do Centro de Estudos sobre Criminalidade e Segurança Pública (CRISP/UFMG).

Giane Silvestre, Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo - NEV-USP

Doutora em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Pesquisadora de Pós-Doutorado no Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV/USP). Bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Membro do Grupo de Estudos em Violência e Administração de Conflitos (GEVAC-UFSCar) e do Instituto de Estudos Comprados em Administração de Conflitos (INCT-InEAC)

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Publicado

2026-03-02

Cómo citar

DUARTE, T. L.; SILVESTRE, G. “O silêncio é um amigo que nunca trai”? Narrativas de atores públicos paulistas e mineiros sobre a ação do PCC. O Público e o Privado, Fortaleza, v. 23, n. 2, p. e17099, 2026. DOI: 10.52521/opp.v23n2.17099. Disponível em: https://revistas.uece.br/index.php/opublicoeoprivado/article/view/17099. Acesso em: 7 mar. 2026.