Tecnologias precárias de acesso à justiça

As cartas de pessoas presas enviadas ao Ministério Público do Rio de Janeiro

Autores

DOI:

https://doi.org/10.52521/opp.v23n2.17146

Resumo

O artigo analisa cartas encaminhadas ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro por pessoas privadas de liberdade e por seus familiares. Tomando a escrita epistolar como fonte primária, o trabalho investiga como esses sujeitos narram o cotidiano prisional e formulam demandas ao Estado. Argumenta-se que as cartas operam como uma "tecnologia precária de acesso à justiça": um recurso instável e atravessado por filtros institucionais, mas central para romper a opacidade do sistema carcerário. A partir da sistematização das queixas, os resultados evidenciam a predominância de solicitações relativas à execução penal, seguidas por denúncias de restrições ao contato com o mundo exterior, violência institucional e precariedade das condições materiais. A análise revela, ainda, a relação ambivalente estabelecida com o Ministério Público, acionado simultaneamente como instância de esperança e de tutela, mas percebido com frustração devido à morosidade e ao distanciamento. Conclui-se que essas correspondências constituem gestos políticos de interpelação que expõem o descompasso entre as garantias legais e a realidade da custódia.

Biografia do Autor

Eduardo Ramos, Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ

Graduado em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), mestre em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGSA/UFRJ). Pesquisa nas seguintes temáticas: segurança pública, vitimização, sistema de justiça e políticas públicas.

Isadora Vianna Sento-Sé, Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ

Doutora em Ciências Sociais pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPCIS/UERJ), mestre em Ciências Sociais pela mesma instituição e graduada em Ciências Econômicas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Atualmente é bolsista de Pós-doutorado FAPERJ. Pesquisadora Associada do Núcleo de Estudos sobre Desigualdades Contemporâneas e de Gênero (NUDERG/UERJ) e Pesquisadora Adjunta Núcleo de Pesquisa em Gênero, Raça e Etnia (NUPEGRE/EMERJ). Integra o grupo de pesquisa Teias do Cuidado - Rede de pesquisa sobre Trabalho Doméstico e de Cuidados, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 

Thais Lemos Duarte, UFMG

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Publicado

2026-03-02

Como Citar

RAMOS, E.; SENTO-SÉ, I. V.; LEMOS DUARTE, T. Tecnologias precárias de acesso à justiça: As cartas de pessoas presas enviadas ao Ministério Público do Rio de Janeiro. O Público e o Privado, Fortaleza, v. 23, n. 2, p. e17146, 2026. DOI: 10.52521/opp.v23n2.17146. Disponível em: https://revistas.uece.br/index.php/opublicoeoprivado/article/view/17146. Acesso em: 7 mar. 2026.