Sexualidades, localidades e deslocamentos em perspectiva transnacional

2021-11-24

Os artigos que pretendemos reunir neste número temático (NT) visam a apresentar e discutir avanços teórico-metodológicos dos estudos acerca da relação entre sexualidade, deslocamentos e experiências localizadas em distintas escalas, tanto em pesquisas produzidas fora do Brasil quanto em investigações inspiradas em trânsitos internacionais.

Especialmente no que diz respeito às pesquisas que envolvem gênero, sexualidade e outros marcadores sociais da diferença, os deslocamentos provocados pelas reflexões a partir de contextos que não são aqueles consagrados pela literatura – os grandes centros urbanos, as capitais e as metrópoles – ensejam questionar alguns lugares-comuns recorrentes, tais como a perspectiva de que a realização plena da sexualidade estaria distante das cidades de origem desses sujeitos, ali percebidos como diferentes. Essa crítica impõe a problematização de espaços das dissidências justamente em cidades, até então, pouco visibilizadas em termos de produção de conhecimento e, assim, conhecer estratégias, equipamentos e negociações agenciadas no sentido de ampliar o leque de vidas vivíveis sem a necessidade de fluxos migratórios que têm como elementos disparadores alguns dos marcadores acima destacados.

Relevantes discussões problematizando a relação entre sexualidade, deslocamentos e espacialidades vem ocorrendo no âmbito das Ciências Sociais brasileiras nas últimas duas décadas. A partir de 2013, essa discussão passou a figurar entre os temas recorrentes nos encontros da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Ciências Sociais- ANPOCS, com o Simpósio de Pesquisa Pós-graduada “Sexualidade e gênero: espaço, corporalidades e relações de poder”, SPG a partir de então reedidato anualmente. Em 2019, com o Simpósio Temático “Ciências Sociais pelos interiores: novas cartografias de pesquisa em gênero e diversidade sexual no Brasil”, a relação entre espacialidades distintas, gênero e sexualidade passa a figurar entre os Grupos de Trabalho- GTs promovidos no evento. Em 2018, durante a 31ª Reunião Brasileira de Antropologia, tal debate tomou lugar na Mesa-Redonda “Gênero e Diversidade Sexual em Contextos Interioranos e Etnicamente Diferenciados - Crítica Colonial, Perspectiva Queer e Epistemopolítica Radical” e no Simpósio Especial “Território, gênero e sexualidade fora dos eixos: cruzando fronteiras teóricas e geopolíticas”. Debate retomado na 32ª edição do evento, durante o GT “Gênero e sexualidade: violência, subjetividades, territorialidades e direitos”. O Fórum Temático “Diversidade sexual e de gênero: interseccionalidade, violência e regionalidade”, ocorrido durante a 5ª Reunião Equatorial de Antropologia- REA em 2014; e mesas redondas ocorridas no Fazendo Gênero, Congresso Internacional de Diversidade Sexual, Étnico-racial e de Gênero- CINABEH, Desfazendo gênero, entre outros eventos, vem mantendo discussão contínua sobre a questão a partir de múltiplas perspectivas teóricas e disciplinares. O acúmulo desse debate vem se materializando ainda em números temáticos de diferentes revistas como, por exemplo, no dossiê “Diversidade Sexual e de Gênero em Áreas Rurais, Contextos Interioranos e/ou Situações Etnicamente Diferenciadas - Novos Descentramentos”, da revista Aceno; “Experiências da Diversidade Sexual e de Gênero em Áreas Rurais, Contextos Interiorianos ou Periferizados e/ou Situações Etnicamente Diferenciadas: novos descentramentos em outras axialidades”, na Amazônica: Revista de Antropologia , ambas em 2017; na Ponto Urbe, em debate temático intitulado “Cidades do interior, interior das cidades”, em 2019 e ainda no dossiê “Cruzando diferenças nos Nordestes brasileiros”, da revista Cadernos de Gênero e sexualidade, de 2020.

A partir das descrições e problematizações realizadas, intentamos contribuir neste número temático com a percepção dos alcances teórico-metodológicos desse debate quando espelhado em experiências distintas de nação, trânsitos entre nações e invenção de lugares outros no mundo. Assim, buscamos cotejar experiências de pesquisa fora do país ou a partir de trânsitos de pesquisadorxs e/ou interlocutorxs entre países. Teorias distintas vêm chamando a atenção para regimes de visibilidade ensejados por localizações privilegiadas do cânone, olho que tudo vê, em relação a vivências objetificadas do sujeito descrito. Sob essa perspectiva, reiterar-se-iam narrativas equivalentes às relações coloniais. As críticas pós-coloniais e feministas vêm apontando a importância dos deslocamentos de significados e ideias nas relações entre sujeitos, e entre sujeitos e instituições, em contextos espacial e temporalmente localizados. Chamam também atenção a contingência e parcialidades desses contextos, desafiando-nos à observação de narrativas a um só tempo transnacionais. Além disso, é importante destacar a inventividade das apropriações das gramáticas coloniais, em que significados são tomados como indícios das zonas de contato entre contextos e possibilidade de invenções de mundo.

Acreditamos que o tratamento teórico-metodológico de experiências de pesquisa que abordem diferentes contextos nacionais e trânsitos entre eles poderá oferecer inovações no tratamento da intersecção entre sexualidade, deslocamentos e experiências de lugar. Por isso, propomos que as pessoas interessadas em compartilhar seus aportes acerca do tema, submetam textos que se estruturem em torno dos seguintes eixos de discussão: perspectivas teórico-metodológicas recentes no para o tratamento da interseção entre espacialidades, gênero e sexualidade; descrevam trânsitos e dinâmicas incorporadas a partir da relação entre cidades, notadamente entre cidades de países distintos; visibilizem trânsitos entre diferentes centralidades na cidade e entre cidades; tematizem movimentos sociais, mobilizações e ações políticas inspiradas no espelhamento entre diferentes localidades; avaliem recepção criativa de meios de comunicação e formas de interação não presenciais e suas formas de subjetivação por sujeitxs espacialmente localizadxs; relatem experiências de pesquisas entre nações a partir dos temas tratados no número temático, entre outros.

Palavras-chave: Sexualidade e gênero; Teoria Social; Localidade; Mobilidades.

Organizadores

Roberto Marques – Docente do Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Estadual do Ceará (PPGS/UECE) e do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Regional do Cariri (URCA). Doutor em Sociologia e Antropologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGSA/UFRJ), com Pós-doutorado junto ao Núcleo de Experimentação em Antropologia e Imagem (NEXT/UFRJ) e ao Núcleo de Estudos de Gênero Pagu/Unicamp.

Silvana Souza Nascimento – Docente do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP), coordenadora do Coletivo Cóccix – Estudos do Corpo-Cidade; co-coordenadora do Laboratório do Núcleo de Antropologia Urbana (LabNAU) da USP. Professora colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Guilherme Passamani – Docente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS) e do Programa de Pós-Graduação em Estudos Culturais (PPGCult) da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS). Doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Doutorando em Antropologia pelo Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL) em associação com a Universidade Nova de Lisboa (UNL). Coordenador do Núcleo de Estudos Néstor Perlongher – Cidade, Geração e Sexualidade (NENP/UFMS).

Prazo para submissão: 01/02/2022

Submissões no site: https://revistas.uece.br/index.php/opublicoeoprivado/index

Previsão de publicação: Até  30 abril de 2022 (N. 41, jan-abr 2022)

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