Chamada de artigos para o dossiê: A FALÁCIA DA SUSTENTABILIDADE: INJUSTIÇAS SOCIOAMBIENTAIS E DESIGUALDADES EM SAÚDE NA AMÉRICA LATINA
Proposta do dossiê
Nas primeiras décadas do século XXI, a América Latina tem vivenciado um contexto de profundas transformações socioambientais, marcado pela intensificação de eventos climáticos extremos, pela expansão de projetos de transição energética e pela persistência — ou mesmo agravamento — de desigualdades históricas. Nesse cenário, discursos sobre “sustentabilidade” e “desenvolvimento verde” têm ocupado lugar central nas agendas estatais e multilaterais, muitas vezes revestidos de uma retórica modernizadora. No entanto, tais discursos frequentemente desconsideram as assimetrias de poder que estruturam o acesso a recursos naturais, a distribuição de riscos e as condições de vida de populações marginalizadas, reproduzindo desigualdades e invisibilizando conflitos.
Este dossiê propõe reunir reflexões sociológicas críticas sobre os paradoxos da sustentabilidade no continente latino-americano, com ênfase nas injustiças socioambientais e em seus desdobramentos sobre a saúde coletiva e os modos de vida de diferentes grupos sociais. Ao articular perspectivas sociológicas críticas com os debates sobre saúde, ambiente e colonialidade, buscamos fomentar uma agenda interdisciplinar e situada, capaz de iluminar as dimensões políticas, econômicas, históricas e simbólicas da crise socioambiental contemporânea.
A análise desse cenário exige atenção especial às populações que enfrentam, de forma desproporcional, os efeitos dessa crise — como povos e comunidades tradicionais, quilombolas, ribeirinhos, catadores de materiais recicláveis e pessoas em situação de rua. Essas populações têm seus corpos e territórios marcados por processos históricos de colonização e exploração, pelos quais se perpetuam formas de desigualdade racial, de gênero, de classe e de território. Ao mesmo tempo, tais grupos produzem estratégias de resistência, saberes e práticas que desafiam a lógica hegemônica e revelam outras possibilidades de relação com a natureza e com o coletivo.
O ponto de partida deste dossiê é a constatação de que a crise socioambiental contemporânea, ao evidenciar a primazia da acumulação capitalista sobre a manutenção da vida e dos ecossistemas, revela os limites de um modelo de “desenvolvimento sustentável” impreciso e ambíguo desde sua origem. Fenômenos como degradação ambiental, poluição, escassez hídrica, acesso desigual a bens comuns e mudanças climáticas têm sido crescentemente reconhecidos como determinantes sociais da saúde, produzindo doenças, agravando vulnerabilidades e ampliando desigualdades entre populações e territórios.
Mais do que problematizar os impactos dessa crise, este dossiê também busca valorizar experiências contra-hegemônicas e lutas coletivas que emergem em diferentes contextos latino-americanos. Ao dar visibilidade a iniciativas comunitárias e movimentos sociais que enfrentam injustiças ambientais e sanitárias, pretendemos inspirar e fortalecer debates e ações voltados a futuros mais justos.
Com essa perspectiva, a edição busca reunir artigos inéditos de pesquisadorxs de distintas regiões do país e do exterior, além de uma entrevista, tendo como intuíto de garantir diversidade regional, racial e de gênero. Serão bem-vindas propostas de investigações que analisem casos concretos de conflitos socioambientais e seus impactos na saúde; estudos que explorem epistemologias de resistência e saberes tradicionais como fundamentos para a justiça territorial; pesquisas que utilizem a interseccionalidade para decifrar experiências de luta nas fronteiras do extrativismo; e contribuições teóricas e metodológicas que ampliem o diálogo entre Sociologia, Saúde Coletiva e Justiça Socioambiental na América Latina.
Eixos temáticos propostos
I - Sustentabilidade, colonialidade e necropolítica
- Críticas sociológicas ao conceito de desenvolvimento sustentável.
- Processos históricos de colonização e seus legados nas políticas ambientais e de saúde.
- Necropolítica ambiental e produção de zonas de sacrifício.
II - Desigualdades socioambientais e saúde
- Determinação social da saúde e crise
- Impactos da poluição, degradação ambiental e escassez de recursos sobre comunidades
- Racismo ambiental, gênero e classe como categorias de análise
III - Transição energética, mudanças climáticas e conflitos territoriais
- Políticas energéticas e seus efeitos sobre populações
- Impactos socioambientais da transição energética em comunidades rurais e
- Conflitos ambientais e lutas por justiça climática.
IV - Experiências contra-hegemônicas e resistências comunitárias
- Mobilizações sociais e práticas de resistência frente a injustiças
- Saberes tradicionais e epistemologias do Sul como alternativas à lógica
- Estratégias coletivas de cuidado, autogestão e justiça
Cronograma
- Prazo final para submissão dos artigos:
15 de setembro de 2026
(Submissões exclusivamente pelo sistema da revista) - Período de avaliação por pares:
De 16 de setembro a 31 de outubro de 2026 - Prazo para envio das versões revisadas:
Até 15 de novembro de 2026 - Entrega final do dossiê à editoria da revista:
Até 01 de dezembro de 2026
Organizador/as
Anaxsuell Fernando da Silva
Doutor em Ciências Sociais (Unicamp). Professor da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila).
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/5102487999559634
Priscila Soraia da Conceição
Doutora em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos (UFMG). Professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/4486150956869931


