O QUE SE “COME”?
O ESTREITO ELO ENTRE ALIMENTAÇÃO E SEXUALIDADE NA ANTROPOLOGIA DO BRASIL
DOI:
https://doi.org/10.5281/zenodo.19136292Palavras-chave:
Alimentação, Sexualidade, Comer, Antropologia.Resumo
Na língua portuguesa falada no Brasil, a expressão “comer” é polissêmica. Ela tanto pode se referir à ingestão de alimentos - no sentido de degustar e sentir prazer com boas receitas e pratos – quanto pode se referir ao ato sexual. Comer tem sentidos muito mais abrangentes do que questões puramente fisiológicas. A palavra está “recheada” de sentidos, intenções, comportamentos, prazeres, afetos, desejos, poder. A proposta deste artigo é levantar algumas considerações a respeito dos sentidos da alimentação, da comida e suas interseções com a sexualidade, sendo as relações de gênero uma consequência dessas considerações. As relações e organizações humanas se materializam na alimentação e na sexualidade. Ambas, por sua vez, carregam uma linguagem erótica. No ponto de vista teológico, a ideia da comensalidade, o prazer da comida e do sexo podem expressar considerações distintas e opostas. Muitas vezes, o “comer” é reprovado como pecado, por constituir um prazer corporal, resultante da entrega às paixões materiais. Por meio de uma leitura crítica, descobriremos que, não obstante a censura ao comer, a tradição cristã se funda na ideia do comer juntos (comensalidade). Aliás, come-se o próprio Cristo, deus encarnado que se oferece em alimento. Estas considerações podem desvelar os sentidos ocultos do comer hoje. Ou ainda, questionar os lugares, as definições e as regras que determinam o que é e como se deve comer na atualidade.
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